Como não deixar a rotina guiar a nossa vida ?
Eu tenho pressa e tanta coisa me interessa...
Aqui na França eles tem uma expressão idiomática que ilustra bem o que eu quero dizer : "Métro, boulot, dodo", a tradução ao pé da letra é "metro, trabalho e cama". Vocês já tiveram esta sensação que a vida esta te levando ?
A angústia :
Sexta foi um dia daqueles : uma estresse horrível, não tive tempo de fazer nem a metade das coisas que tinha que fazer no trabalho (acabei trazendo trabalho para casa, coisa que não faço a muito tempo e que tinha me prometido não fazer), chegando em casa fomos ao cinema para me desestressar um pouco.
O filme : "Comme une image" da Agnès Jaoui, é realmente muito bom, bem realista, mas só me fez sentir pior! O filme conta a história de um grupo de pessoas com suas manias e histerias, cada um vendo só o seu lado o tempo todo. Sai do filme me sentindo exatamente mais uma histérica no mundo.
Quero fazer muitas coisas ao mesmo tempo e por mais que eu faça eu acabo não fazendo tudo e fico super frustada e insatisfeita com o resultado. Aquela angustia de fazer mil coisas ao mesmo tempo e de nada fazer direito. Conseqüência : uma taxa de estresse enorme no organismo.
Como ando muito estressada, acho que não estou fazendo um trabalho muito bom, ando meio intolerante com as pessoas (na vida pessoal e profissional) e acho que as pessoas sentem (estou ficando intragável). Da para ver o filme caiu como uma pluma. Conseqüência : não consegui dormir.
Voltando um pouco no tempo :
Uma das razões pela qual eu me mudei para a França foi porque eu queria resgatar um pouco a minha vida, meu tempo, rever tudo e começar tudo de novo. Para poder ser mestre de minha vida e não simplesmente deixar que ela me leve onde ela bem entende…
É verdade que na analise eu falei varias vezes que não era necessário que eu me mudasse de país para fazer isto, afinal isto é uma fuga, é muito fácil de dizer simplesmente, " Ó que vida cruel!" A minha vida não esta boa aqui então eu me mudo. Pois afinal tudo é culpa da circunstancias…
(Acredito muito em Freud e acho que sofremos muito traumas na infância que carregamos como um fardo pelo resto da vida, sem sabermos, sem sentirmos. Mas acredito tambem que só nós mesmos podemos fazer alguma coisa para mudar, não adianta passar a vida esperando ou dizendo "Ó céus!".)
Bom, mas se mudar de país era uma boa maneira de rever tudo…
E foi o que aconteceu no início. Mas com o tempo as coisas se acalmaram e a rotina voltou.
A rotina :
Acordar, tomar banho, tomar café, pegar o trem ir para o trabalho, trabalhar para este sistema esmagador da sociedade1, trabalhar, trabalhar, trabalhar, voltar para casa de trem, fazer uma das minhas atividades (dança, psicanálise, coach, francês, fisioterapia…), depois voltar para casa jantar, olhar meus e-mails que não terei tempo de responder tão cedo, sorrir com as notícias da família ou dos amigos distantes, falar no telefone com minha mãe ou meu pai ou alguém mais que mora longe, me inteirar rapidamente das notícias pelo jornal ou pela internet, ir deitar, finalmente dizer boa noite para o Pascal, apagar a luz… E o despertador toca e tudo recomeça de novo, um novo dia… Eu prefiro ficar na cama dormindo.
E o fim de semana, a mesma coisa, sempre tenho uma lista enorme de coisas para fazer no fim de semana…
Tem noites (principalmente domingo) que eu não consigo dormir de estresse e quase na hora de acordar eu durmo e não quero mais acordar (compreensível !).
No divã :
Tem tanta coisa que eu quero fazer, tanta, tantos planos, eu fico correndo atras deles e eu acabo me deixando levar por este tornado de planos, de idéias, de sonhos. Como não se deixar afogar por esta tempestade em alto mar ?
(E olha que eu não tenho televisão, alias tenho, a minha mãe acabou de me dar uma, não faz nem um mês, mas de qualquer forma quase não vejo. Sei lá a última vez que a gente viu foi sábado passado na casa do pai do Pascal, sei lá a gente deve ter visto duas vezes depois que a minha mãe me deu.)
Como não deixar a minha vida me levar ? Será que é porque eu tenho muitos planos? Será que é porque eu não os analiso o suficiente ? Ou será que é o contrário eu penso demais ? Ou será que é porque sou muito ambiciosa e quero abraçar o mundo com as pernas ? E da onde vem estes planos ? São desejos do sistema ou meus ? Por que ? Para que ? Será que serei mais feliz ? Será que vale a pena ? Por que levar a vida neste estresse ? Será que fico aqui sofrendo por ideais que não me levaram a felicidade ? Por que será que me deixo levar desta forma ? Mas ao mesmo tempo eu quero tanto, tudo…
Com certeza sou muito exigente e exijo muito de mim, mas como poderia fazer de outra maneira? A vida é uma só (como dizia Vinicius, só acredito no contrário com assinatura de Deus reconhecida em cartório).
E você ? É a tua vida que te guia ou é você que guia a tua vida?
"Só tenho tempo pras manchetes no metrô
E o que acontece na novela
Alguém me conta no corredor
Escolho os filmes que eu não vejo no elevador
Pelas estrelas que eu encontro
Na crítica do leitor
Eu tenho pressa
E tanta coisa me interessa
Mas nada tanto assim
Só me concentro em apostilas
Coisa tão normal
Leio os roteiros de viagem
Enquanto rola o comercial
Conheço quase o mundo inteiro
Por cartão postal
Eu sei de quase tudo um pouco
E quase tudo mal
Eu tenho pressa
E tanta coisa me interessa..."
(NADA TANTO ASSIM , Kid Abelha)
1 – Eu gosto do meu trabalho, mas filosoficamente acho que passo muito tempo da minha vida trabalhando para um sistema com o qual não estou de acordo. Na verdade me sinto escrava dele. É uma sorte que eu goste do meu trabalho.
